Solito foi uma daquelas leituras que continuam com a gente depois de terminar. É um livro que envolve profundamente, mas que também é difícil de ler pelo sofrimento que acompanha cada etapa da história. Em muitos momentos, fiquei com o coração na mão, ansiosa para saber o que aconteceria e se eles conseguiriam continuar.
A maneira como o autor escreve intensifica essa experiência. Ele descreve os ambientes, as pessoas, os cheiros e os sabores com uma atenção aos mínimos detalhes que faz a gente quase se sentir ali. Essa riqueza torna a história muito próxima, inclusive nas partes mais dolorosas. Os ferimentos causados pelos cactos, a falta de água e o desgaste físico dão uma dimensão concreta do que aquela travessia exige de um corpo. E pensar que quem está vivendo tudo isso é uma criança torna a leitura ainda mais triste.
Como imigrante, senti uma identificação inicial com a história. Mas o livro me fez perceber, sobretudo, a distância entre trajetórias que costumamos reunir sob uma mesma palavra. Compartilhamos o rótulo de imigrante, mas as condições em que partimos, os riscos que enfrentamos e as possibilidades que temos podem ser completamente diferentes.
Minha experiência me aproxima do tema, mas não significa que eu compreenda tudo o que ele envolve. Acompanhar o que ele passou ampliou meu olhar e me fez reconhecer o quanto ainda posso aprender sobre uma realidade da qual também faço parte.
É uma das coisas que mais procuro nas histórias reais: conhecer uma vida que me permita enxergar além da minha. Solito fez isso de uma maneira dolorosa e muito vívida. Por trás de uma palavra tão ampla como “imigrante”, existe uma pessoa, um corpo que sente sede e dor, uma história particular. E, neste caso, uma criança atravessando situações extremas que ninguém deveria precisar enfrentar.

0 comments